croni2 Crónicas, Lisboa Mátria

Os Principezinhos


É NATAL! Viva as idas ao Cinema. Infantil. Supostamente.

Das tradições natalícias, O Cinema é quase A Maior! E, dependendo do filme, claro, uma das mais belas.
Para grande sorte minha, Mariachito não gosta de Circo. Conheço-lhe a expressão de tédio. E a de asco, também. Não precisa de me dizer nada. Mas disse: “Pai, e depois disto, os leões e os tigres vão para onde?”, ainda era só um bebé. Hoje é um puto de 9 anos que nunca mais quis ir ao supostamente “Maior Espectáculo do Mundo” e recusa, na escola, os convites habituais desta quadra. Eu também era assim. Lembro-me de não conseguir perceber como é que aquele humor dos palhaços conseguia arrancar gargalhadas das bancadas e tranquilizava-me pensar “Se o Badaró tem programas de televisão, tudo é possível”. Os cãezinhos amestrados e os seus números eram uma mera sombra do que Oscar Tobias Adolfo dIAZ fazia lá em casa em troca de queijo, a maior das recompensas para o seu complicado palato. Na “gaiola” dos leões e tigres, o que me fazia mesmo “espécie” era a pose altiva, a transbordar de fanfarronice e imodéstia (vá lá saber-se porquê) do Não-Sei-Quantas-Cardinalli ou Não-Sei-Quê-Chen, empunhando o seu chicote e envergando roupagens que parecia ter retirado do cacifo do palhaço rico que afinal era ele mas com a cara pintada e a tocar saxo alto brilhante enquanto o palhaço pobre ficava condenado a tocar um fosco trompete. No cômputo geral, achava tudo aquilo triste, decrépito, caduco. Mas no meu tempo, não gostar de circo fazia de nós um bocado estranhos. Coisa que os anos vieram, enfim, a validar. Mariachito “está-se perfeitamente marimbando”. E isso orgulha-me. Prefere cinema. Foi sempre a “Coisa Dele”. E a minha. Devo ao Natal e às mãos dos meus pais (uma de cada lado, a atravessar a Av. da Liberdade, a “Avenida dos Cinemas” nos anos 80), do Bambi no Tivoli (sim, chorar baba e ranho na parte em que “caçam” a mãe) ao “Caça Fantasmas” no Condes. Mariachito deve-me (não que alguma vez vá cobrar para lá dos abraços apertados) tantas tardes de pura, absoluta e memorável diversão cinematográfica. É sempre um dia em família que não tem par, com o qual se sonha, por antecipação, como por umas férias de pé-na-areia. Porque quem não gosta de sorrir (váááá, CONFESSEM, é mesmo “soltar uma sonora gargalhada”) com os filmes que, supostamente, são para os nossos filhos? Dos clássicos aos contemporâneos, o Cinema Infanto-Juvenil (não sei se isto existe mas é para se perceber), o rigor não baixa os braços e a qualidade é quase transversal (embora, convenhamos, também levemos “banhadas”). Ainda assim, há clássicos inesquecíveis, contemporâneos que são “instant classics”, cenas intemporais, bandas sonoras memoráveis… e depois há este “O Principezinho”, em exibição nesta quadra. Para quem ainda não o viu, a primeira advertência é: “Daqui ninguém sai igual”. Tenha ou não já lido (e relido) o Eterno Clássico de Saint-Exupéry. Porque é essa a primeira ideia: A reinvenção d’O Principezinho é genial. E estamos a falar de um tempo em que até essa grande obra corre sérios riscos perante a banalização das suas “tiradas”, amiúde publicadas nas Redes Sociais para ali ficarem a flutuar, descontextualizadas, ocas e vulgares. Depois, há a inegável estalada-de-luva-branca que uma produção europeia, orgulhosa do seu património, aplica aos Estúdios Disney e Dreamworks, esses gigantes monopolistas. Dois géneros de animação completamente distintos misturam-se para ilustrar uma história apaixonante que tem, como fio condutor, aquele livro que já não se chama “O Principezinho” mas sim “O Pequeno Príncipe”, como a “Anita” passou a ser “Martine” e os “Estrunfes” são agora “Smurfs”, com uma Banda Sonora histórica (Hans Zimmer, o mesmo d’A Barreira Invisível, Piratas das Caraíbas, Entrevista com o Vampiro, Thelma e Louise, etc) e um elenco inigualável (se os vossos filhos já forem crescidinhos, não percam a versão legendada) com Jeff Bridges, James Franco, Ricky Gervais, Marion Cotillard, Benicio del Toro, Vincent Cassel (a raposa) e tantos outros. Sobretudo, se pensam que O Principezinho é um filme para crianças, é sinal que não aprenderam nada com o livro. E esqueceram, que é precisamente O Problema. Mas ainda vão a tempo. De ser Adultos Melhores.

 

Por El Mariachi Diaz