MARIATCHII_CRO_15_copy Crónicas, Lisboa Mátria

Castelos de/na Areia


Dentro de casa está insuportável. Vou lá para fora. Como todos os verões desde que me lembro.

Lá em baixo, na praceta, Mariachito anda de bicicleta. Aqui em cima, escrevo isto numa espécie de escritório improvisado na varanda. Um laptop, um cinzeiro e uma cerveja. Porquê? Porque posso. Podemos todos. É Verão.

E para lá de quaisquer alarmismos (ou talvez não) que tenham a ver com consequências do Aquecimento Global (sabiam que este foi o Maio mais quente desde o Séc. XIX?), a verdade é que os verões continuam iguais. É biológico. O sol dá viço, florescem humores, os dias são longos, as noites quentes e no dia seguinte não há escola. Para uma criança, isto é sinónimo de liberdade. Para os pais também. Esses pais que ainda se lembram (ou deveriam) que os Santos Populares eram o início de tudo. As primeiras noites realmente quentes. Saltava-se à fogueira de dedos engordurados de farturas, jogava-se à bola até que ninguém a visse no escuro, às escondidas, ao bate-pé, até a miúda dos cabelos compridos da rua de cima, “sempre enfiada em casa”, dava um ar da sua imensa graça. Depois, as férias… Uns iam pra o Algarve, outros para “A Terra”, havia quem ficasse para receber os familiares emigrantes, havia quem ficasse e não recebia ninguém, variava de família para família, mas a constante era uma só: Praia. Muita praia. Até fartar ou até as nortadas de final de Agosto darem o primeiro indício de que tudo isto acabaria em breve. Mas o que tem a praia de tão especial? Nada. À excepção do facto de ser A Praia. Areia e Mar. Sem quaisquer infraestruturas que possibilitem o divertimento. Que aborrecido, não é? Não! Hoje, quando a maioria dos pais se queixam de que os seus filhos não conseguem estar onde quer que seja sem tablets, telemóveis ou consolas portáteis, como ontem, a praia será sempre aquele mundo aparte, essa franja onde a terra acaba mas a imaginação de uma criança continua, onde o tempo voa sem que se consiga fazer metade das brincadeiras possíveis. É claro que há quem não goste de praia. Mas de certeza que é adulto! E daqueles que já não fazem castelos na areia. Que é coisa que eu não quero que Mariachito alguma vez deixe de fazer. Por muito que a vida o vergue, lhe tolde o ânimo, o envelheça prematuramente, como vejo ser condição de que tanta gente cada vez mais padece, os Castelos de Areia são coisa para se fazer a vida toda! Projectos idealizados e executados com detalhes de ourives para a perda dos quais, por via de algo que não controlamos, como as ondas, deveremos estar sempre preparados. Porque só assim lançamos, logo de seguida, mãos à obra. Em vez de praguejar, maldizer e maldesejar a tudo e todos ou a um só que seja.

E escrevo sobre isto porque ontem, na praia, Mariachito perguntou-se se não seria, com 9 anos, demasiado velho para fazer castelos de areia. Disse-lhe que os Castelos de Areia não têm a ver com idade. Ele partiu para outra: Sobrepôs três bolas de areia e procurou conchas e búzios para fazer os braços, olhos e nariz. Algas para cabelo. Duas turistas sorriem e aprovam a obra com o polegar para cima. Acham piada à opção pelo Boneco de Areia à impossibilidade de se fazer um Boneco de Neve, ao qual estão mais habituadas. E oferecem-lhe os seus talentos na matéria. Mariachito propõe que se faça antes um Castelo de Areia. Elas ficam radiantes. Quando tudo isto acaba, tiram-se fotografias à grande obra e despedimo-nos. O meu filho está feliz porque, afinal, há gente muito mais velha que ele a fazer Castelos de Areia. E já sabe que, noutras latitudes, também nunca se é demasiado velho para se fazer Bonecos de Neve. Mesmo que depois venha o sol e derreta o produto de tanto trabalho. “E gostavas de viver na Suécia, filho?”, “O quê? Sem praia? NUNCA!”

El Mariachi Diaz