il_570xN.728960263_nklr Crónicas, Refúgios da Felicidade

Olhá-lo


Olhando para ele, deitado frente à televisão, vi-lhe as pernas compridas batendo num dos braços do sofá e a cabeça a poucos palmos do outro extremo. Com o olhar, medi-lhe a altura e a idade e revi-o ali, poucas semanas de vida, gritando enraivecido, muito vermelho, com as pernas agitadas por causa das malditas cólicas. Uma migalha de gente no sofá, poucos anos antes. Diria poucas semanas, ou mesmo dois ou três dias, se não soubesse que passou quase uma década!

Olhando para trás nem tudo acontece assim tão depressa. Há um passado de mágoas que parecem sempre mais anos do que os que realmente se viveram. Há pequenos dramas agigantados pela distância e grandes saudades exacerbadas pelo ressentimento. Na vida a medida do tempo é sempre proporcional às emoções, num sentido inverso que transforma as coisas boas em instantes e as coisas más em eternidades.
O encantamento de ter um filho não é a causa de quase não vermos os anos passarem, de quase não conseguirmos ligar o momento em que eles deixam de ser bebés e se tornam crianças, em que eles deixam as fraldas e aprendem a andar de bicicleta, em que eles trocam os monossílabos desalinhados por frases autoritárias e argumentos lógicos. Isso é culpa do medo de não vivermos tudo intensamente, sugado ao pormenor, acreditando que é possível não perder cada mudança, cada crescimento, se nos mantivermos perfeitamente alerta. Puro engano!
Um dia passamos na sala, olhamos para o nosso filho e vemos que enche o sofá, que deitado ocupa-o de lés a lés. Noutro dia, na pressa da manhã, reparamos que as calças que ainda agora dobrávamos para encurtar a bainha, parecem agora calções, deixando ver as meias quase por completo. Em dias sucessivos deixamos de poder entrar no wc enquanto toma banho, deixamos de trocar beijinhos à despedida na escola, deixamos de cortar o bife aos bocadinhos ao jantar e, quanto mais independentes os nossos filhos se tornam, mais dependentes deles nos sentimos. Numa pressa angustiante de ser tudo tão fugaz, tão veloz e tão sofrido, perguntamo-nos por onde estivemos a olhar enquanto eles cresciam.
Então, enquanto temos tempo, enquanto eles nos pedem beijinhos e para dormirem na nossa cama, enquanto lhes lavamos o cabelo com cheiro a Johnson e lhes aquecemos o leite ao pequeno-almoço, saibamos que, por ser o melhor de tudo, passará depressa, demasiado depressa para a vida que temos e nunca suficiente para o medo que escondemos.
Com a sua curiosidade característica, o Tiago pergunta-me por vezes coisas sobre o seu próprio passado: o que comia quando era bebé, onde dormia, de que brincadeiras gostava e o que dizia e fazia. Enquanto lhe respondo vejo o seu olhar entusiasmado, como se eu lhe falasse de um passado longínquo… “Velhos Tempos!”, como ele próprio já comentou com graça uma vez. Enquanto lhe respondo, sinto que retrocedi apenas umas semanas ou escassas horas e que o crescimento dele me deslumbra tanto quanto me assusta.
No dia-a-dia, as nossas contradições de mães quase passam despercebidas mas, se atentarmos bem ao filme, notaremos que depois de um “Tiago, calça os ténis! Já tens quase 10 anos!”, pode chegar um “Tiago, senta aqui no colo da mãe para trocarmos miminhos, meu bebé!”.
Olhando para ele, a encher o sofá e a minha vida. Olhando para ele, apressando-o a crescer para saber atar os ténis e fazer o próprio lanche. Olhando para ele, a querê-lo tão meu e tão pequeno. Olhando para ele e para o tempo estacionado quando dói. Olhando para ele e para o tempo a voar quando tudo fica bem.

 

Por Andreia Rasga

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