Old_Young_Hand_slide Crónicas, Refúgios da Felicidade

O meu avô


Desde criança que adoro o miolo do pão. Na casa dos meus avós paternos todos os dias havia um pão fresquinho enorme que ia para a mesa inteiro e que eu transformava numa gruta, com a minha mão pequenina, escavando o interior para lhe retirar o miolo.

 

Aquela carcaça de pão oca era depois, discretamente, colocada junto ao prato do meu avô. Ele, quando chegava à mesa, sorria e sabia bem como tinha acontecido aquela magia.
Lembro de há pouco anos, num almoço de domingo, o meu avô, sentado ao meu lado, pedir que lhe passasse um pedaço de pão. Depois, retirou o miolo e deixou pousada, junto ao prato, uma gruta oca, comendo apenas o interior que os dentes dos seus quase 90 anos lhe permitiam. Naquele momento, sei que tive perfeita noção da passagem do tempo, como se em poucos segundos desfilassem, frente aos meus olhos, as três décadas da minha vida. Uma inversão da história e dos papéis. O mundo redondo. Um percurso cíclico, sem escolha, sem desvios. O tal ciclo natural da vida que conhecemos e aceitamos, mas mantemos a uma distância perfeita para não nos assustar, para conseguirmos andar em frente, fazer coisas, procriar, tomar decisões, acordar e sair da cama, ter sonhos e lutar por eles.
Num ápice perdi idade e altura, o meu avô perdeu anos mas ganhou cabelo e, naquele almoço, eu quis ser a menina que comia o miolo e ele o avô que ficava com a côdea e nunca este contrário.
Naquele domingo, quis retroceder o avanço do tempo, travá-lo, deixá-lo parado, preso, eterno, escavando a memória como o miolo do pão e enchendo a gruta da côdea como se enchem os dias da vida. Os mesmos dias tantas vezes desperdiçados, injustiçados, cheios de banalidades e de feridas, ignorando tudo aquilo que realmente importa. As nossas pessoas e a nossa história. Porque, por muito que teimemos em disfarçar, a velhice não enruga só a pele e entorpece os movimentos. A velhice dói. O tempo que fica para trás é infinitamente maior do que aquele que se encontra pela frente. Então, muda tudo! Encurtam-se as expetativas e desfocam-se as perspetivas. Há o dia seguinte e aquele adormecer. Há mais um Natal e um outro aniversário. Há os almoços de domingo, os netos, os bisnetos, as saudades de quem já não está. E pouco mais que é o quase tudo, que quando acaba sabe realmente a nada.
Então, vivemos certos de que a velhice que vemos é a velhice que seremos. E cabemos a nós, proteger quem nos criou, sabendo e sentindo, num egoísmo sem malícia, que é muito mais fácil ser cuidado do que cuidar.
O meu avô partiu há poucos dias. Era o meu último avô. Deixou-me o miolo do pão e a côdea da vida para encher. Para encher de paixão, como aquela que ele sentia pelos jogos de futebol. De amor, como o que dividiu e multiplicou com a minha avó com quem viveu, no trabalho e na família, durante mais de 60 anos. De amizade, como a que ele partilhava com tantos velhotes de boina, parecidos a ele, a quem acenava pela rua, com o carro em ponto-morto nas descidas, quando me ia buscar à escola. De serenidade, como sempre lhe conheci e que sei que herdei. Para encher de boas memórias como as revistas do jornal de domingo que me guardava, religiosamente. Para encher do melhor que podemos trazer para os dias que temos. Enquanto não formos velhos. Enquanto cuidarmos dos nossos filhos. Enquanto lhes tentamos ensinar como, um dia, fará parte dos dias deles cuidar dos nossos.

 

Por Andreia Rasga

refugiosdefelicidade.blogspot.pt