MR_CRONICA_10 copy Crónicas, No Mundo da MR

Filha, adoro-te bué, yah?LOL!


Um simples “yah” levou-me a cogitar um futuro angustiante marcado por uma comunicação pobre e deficiente. E agora? Como atuar quando o “fixe”, o “bué” e o “curtir” nos invadem os diálogos?

 

Um destes dias, a Maria Rita chegou da escola a repetir orgulhosamente o monossílabo “yah”. Como se fosse uma enorme conquista linguística possível de se aplicar em qualquer resposta.
– “Yah, é isso.”
– “Yah, já vou.”
– “Yah, já fiz”
– “Yah, tá tudo bem.”
Perante o uso recorrente da abreviatura, dei por mim a considerar um cenário arrepiante. E não estou a exagerar. Depressa fui invadida por uma sensação estranha comandada por um enorme vazio, que me levou a temer pela continuidade dos nossos preciosos diálogos entre mãe e filha. Juro que fiquei com medo que até as respostas simples – que ao final de um dia de trabalho (cheio de saudades dela) sabem-me pela vida – desaparecessem dos nossas conversas. E daí até idealizar uma MR presa à geração do “Bué”, em vez da geração do “Buá”, foi um instante.
Desde logo, questionei sobre como seria falar com ela no futuro. Fiquei arrepiada só de imaginar que ela um dia se transforme numa daquelas adolescentes que se expressam de maneira atabalhoada, deficiente e muito confusa. Do género:
– “Tás a ver aquela pita buéda morena da minha turma? Yah, essa cena! A pita foi obrigada pela kota dela a ir à toca da velha levar umas cenas, pq a velha tava a bater mal, tázaver? Ouve, nem te passes! A pita vai na descontra pela estrada, mas a toca da velha era bué bué longe, e a pita c… na cena da kota dela e enfiou-se por um atalho. Népia de mitra, na boa e tal, curtindo o som do iPod… É então que, ouve lá, salta um baita dog marado, bué ugly mêmo. Marado, marado!… Epá, má onda, tázaver? LOL”
Ui. Estou certa que nessa altura vou imediatamente fazer soar o alarme do:
“SOCORRO, a minha filha JÁ não VERBALIZA! E agora, Tiaaaaaaaaaaaaaaago o que fazemos?”
Admito que os pais precisam de se atualizar constantemente para acompanhar o ritmo, necessidades e exigências dos filhos, mas daí até compactuar com uma comunicação pobre, insatisfatória e preguiçosa vai uma enorme distância. Estou a anos-luz de me conformar que um dia a MR adote este registo de poupança nas palavras.
Logo ela que é uma tagarela deliciosamente persistente!
Logo ela que não perde uma oportunidade de dar opinião!
Logo ela que gosta de se fazer ouvir como gente grande, como tanto nos orgulhamos lá em casa!
Há relativamente pouco tempo, li num jornal que nas conversas do dia-a-dia utilizamos cerca de 2200 palavras diferentes. Mas que entre os jovens a tendência é para se assistir a uma escassez nas palavras e que as expressões mais populares são o “bué”, o “fixe”, o “curtir” e o tal “yah”. O uso de palavras como estas, mais simples e abreviadas, aparentemente alarmou os ingleses, que já estão a fazer uma campanha nacional para chamar a atenção dos riscos daquilo que consideram ser uma redução do vocabulário. Em contrapartida, os especialistas portugueses não estão preocupados, porque consideram que a linguagem dos mais jovens espelha (apenas) um sinal dos tempos.
Eu cá não tenho problemas em reconhecer que estou apreensiva com esta nova realidade. E como eu parecem estar muitos educadores e pais. Até o próprio o Papa Francisco já se mostrou alarmado com o uso excessivo de telemóveis e das redes sociais, especialmente, junto das camadas mais jovens. Numa das suas mensagens, o Papa desafiou a moderar a consulta de informação e pediu ajuda dos pais para que intervenham na maneira de comunicar dos filhos: “É preciso ensinar a os mais novos a comunicar e isso faz-se em família”, disse.
Eu concordo e vou aceitar o desafio, hoje mesmo.

 

Por Soraia Teixeira