MARIATCHIN_10web copy Crónicas, Lisboa Mátria

Estamos a estacionar!


TV > ZX Spectrum > Jogo Electrónico “TETRIS” > Redes Sociais > Tablets > Carros Velhos em Lisboa NÃO, uma evolução óbvia!

 

Há coisa de quase vinte anos, andava o dIAZ a tirar a ferros uma licenciatura daquelas que depois se provou não servir para nada à excepção de uma imensa pândega, que é basicamente para o que as licenciaturas servem, a Televisão fez 50 anos. Com mais ou menos exactidão, porque a coisa terá sido inventada lá para 1923, generalizou-se na década de 30 mas, enfim, o que se referia era a TV a cores, a chegar a tudo e a todos (em Portugal, enfim, era mais nos cafés, colectividades e Clubes Recreativos, para o Festival da Eurovisão e Gabriela, Cravo e Canela, a preto e branco, até à década de 70). O assunto serviu, na altura, para a publicação, num jornal que já não existe, de um extenso “estudo” (ou seria um daqueles meros artigos que hoje toda a gente partilharia, com assaz leviandade, no Facebook?), onde se lia: “A Humanidade mudou mais nos últimos 50 anos que nos anteriores 500”… Talvez não tenham sido exactamente estas palavras. Mas qualquer imprecisão é devida ao deficiente armazenamento, por parte da minha rica senhora – obrigado por tudo – de centenas de recortes de jornal arquivados em dossiers que teimo em coleccionar, não obstante os protestos (com razão, ‘tadinha).
O que dizer, pois, de Hoje? Passaram mais 20 anos e os nossos filhos digitam e arrastam no tablet quase tão intuitivamente como, “naquele tempo”, quando ainda não sonhávamos ser pais, observávamos, espantadíssimos, os petizes compenetrados com o tetris naquelas “consolas” portáteis. Suponho que fosse o mesmo espanto com que os nossos pais olhavam para a forma como jogávamos Space Invaders na Atari ou Chuckie Egg no Spectrum… Só que agora não estamos sozinhos. Partilhamos. Estados de espírito, tristezas, alegrias. Eles não estão livres, como livres não estão de nada que fazemos. Agora, apontamos o telemóvel para tirar uma foto e é-nos perguntado: “E agora, pai? Vais partilhar no Facebook, Instagram ou Pinterest?”… o que virá a seguir? Uma regressão. Em Lisboa, pelo menos.
Há muito pouco tempo, a frase “estou a estacionar” servia para tudo. Em Lisboa. Contextualizemos: Com telemóvel, perdeu-se um pouco do “Estar lá, no dia e hora combinada”. Na própria data, é preciso fazer um “update”. E “Estamos a sair”, “A chegar” ou “Quase, quase, só mais um pouco” são desculpas esfarrapadas. Quem está à nossa espera merece algo que o faça ficar mais descansado. “Estamos a estacionar” é, sabem os lisboetas, perfeito. Porque significa “Lá ir, vamos, não se sabe é a que horas chegamos” porque, já se sabe, podemos envelhecer décadas a tentar fazê-lo. Com os nossos filhos no banco de trás. Passeiozinho na Estrela ao final do dia? Era ir às 15h e começar à procura de estacionamento com esperança que o sol não se fosse embora até encontrarmos um lugar, muito provavelmente em Santos, lá para as 17h! Com os nossos filhos no banco de trás. Agora, “Estamos a estacionar” já não pega. Há estacionamentos. Pagos. Caros. E há interdição de circulação de automóveis anteriores a Mil Nove e Carqueja. GENIAL. Agora sim, vamos ter uma capital moderníssima, como a Suécia, onde até os ministros vão de transportes públicos para o trabalho, para levarmos os nossos filhos, no banco do lado, à Baixa. Só um “probleminha”… Para residentes, a circulação é permitida. Ou seja, voltamos, em pleno 2014, a uma Lisboa igual a si mesma desde 1980: Quem vem de fora, usa a fantástica rede de transportes públicos. Os lisboetas que moram no Rato vão ao cinema às Amoreiras… de CARRO!