maxresdefault Crónicas, Olhar no espelho

500 euros?


Houve quem pagasse o equivalente ao salário mínimo nacional para o filho ir ao concerto da Violeta. Que exemplo estamos a dar à nossa descendência, será que não aprendemos nada com os sacrifícios que ainda estamos a fazer? O desperdício foi o que nos trouxe até aqui.

 

Escrevo ainda mal refeita do estado de espanto em que aquela notícia me fez ficar. Acabo de ler numa partilha no Facebook que houve pais que gastaram 500 euros num bilhete para o espetáculo da Violeta. Que loucura, penso com os meus botões, imaginando que tal episódio terá sido uma excentricidade bem apanhada pelos media. Quase um caso isolado, de tão insólito.

Eis que aquilo que seria, a meu ver, uma exceção tem réplicas. Houve quem pagasse bilhetes de avião para aterrar em Lisboa e ver o concerto da mas recente diva da pequenada.

Assim que foi anunciado que a Violeta vinha a Lisboa, instalou-se a histeria entre a criançada e o desespero dos pais. Lá se vão uns euros da carteira e pior… alguém tem que levar a miudagem ao espetáculo, que ainda faltam uns aninhos para andarem por aí sozinhos sem supervisão parental.

Um casal de amigos com uma fã da Violeta lá em casa, tirou à sorte (foi mais ao azar…) quem iria escoltar a pequena.

As filas amontoaram-se cedo para guardar o melhor lugar, o mais próximo possível da Violeta. E as horas passaram-se a cantarolar em espanhol as letras sabidas de cor de salteado. Nada de novo. Mas 500 euros?! Está tudo maluco? Não está aqui em causa o espetáculo, muito menos a Violeta, que é engraçada e veste cor-de-rosa. Nem os euros que custa um bilhete a preço normal de bilheteira, antes de esgotar (e mesmo este valor é impensável para muitas famílias).

Que exemplo estamos a dar aos mais pequenos quando compramos um bilhete pelo mesmo valor do salário mínimo nacional e satisfazemos a peso de ouro um desejo (não será difícil tratar-se até de um capricho) dos nossos filhos?

Isto de educar a descendência é tema que merece todo o tipo de palpites, de sentenças e de crenças. Cada um saberá como lidar da melhor forma com aquele ser mais pequeno. De qualquer modo, 500 euros por um bilhete para o concerto da Violeta, não me parece razoável.

Até podia invocar aqui a questão da moralidade tendo em conta a situação desgraçada em que o país ainda se encontra depois da troika. Podia. E seria legítimo.

Mais grave do que estourar 500 euros num bilhete para um concerto infantil, é a mensagem que se está a passar para a geração que um dia nos vai governar. O desperdício e o desrespeito pelo dinheiro e por aquilo que de bom pode fazer pela sociedade trouxe-nos até aqui. A um beco sem saída aparente. Quero acreditar que a geração dos nossos filhos será quem vai valer a Portugal. Porque são muito mais inteligentes que nós e têm uma cultura cada vez mais de sociedade e menos individualista.

Porém estamos a dar uns exemplos desgraçados a esta geração na qual depositamos esperança.

Já há uns tempos me impressionou o episódio relatado por uma amiga que é dentista. É médica sobretudo de crianças e não raras vezes lhe acontece os pais fazerem cara feia ao custo do tratamento que ela sugere, quando o filho tem nas mãos uma consola portátil de última geração, que custa à vontade 500 euros… Num dos casos, o pequeno tinha várias cáries e era necessários assegurar que os dentes de leite só caiam na altura certa. “Mas tem mesmo que ser? Esses dentes nem lhe fazem falta!”, ouviu do pai da criança.

Importante mesmo, são os concertos da Violeta a 500 euros e consolas novas.

 

Ana Sofia Santos