MARIATCHIN_9_web Crónicas, Lisboa Mátria

Para o Ano é que é!


Lá porque não mudaria nada no ano transacto, não quer dizer que não tenha resoluções para 2015. Tenho. Que tudo se repita, principalmente!

Os tais que espreitam tudo a partir de um copo meio-vazio, mudariam sempre alguma coisa em 2014 por forma a perspectivar um 2015 melhor. Os que habitualmente vêem as coisas num copo meio-cheio, como eu (a maior parte das vezes, pelo menos), têm tendência a sorrir quando se olha para trás. E para a frente. E de soslaio para cada um dos lados. Cada novo dia é uma efeméride a assinalar determinado feito no dia equivalente de ano anterior. Qualquer um dos anos anteriores. E como eu tenho muito mais anos anteriores por onde escolher que o meu filho, é mais fácil fazer este exercício e justificá-lo aquando das perguntas características dos seus oito anos: “Porque é que vamos a sítio X?”,”Porque no ano Y eu fiz lá W”, “Aaaahhh, tá bem”. Normalmente é isto. Com mais um ou outro pormenor. De somenos.
O Amor. Isso. Aposto que no Réveillon, uns dias antes e alguns depois (até pelo menos dia 5 de Janeiro, aquela 2.ª Feira que parece ter feito dissipar, com violência e estertor, toda a magia), foi um fartote de desejos e votos de “Mais Amor”, “Um Ano Cheio de Amor”, etc. O Amor, sempre esse, como se fizesse andar o mundo, Ah o Amor. Custe o que custar, doa a quem doer, O Amor é feito de cedências. E só o contraria quem ainda não o conheceu (o Exm.º Sr. Amor) ou quem não é pai. Para o bem e para o pior, ser pai também é saber muito bem que fazemos coisas para as quais não teríamos a mínima pachorra se tivéssemos ficado para tios. Por mais livros que se leiam, por mais psiquiatria barata que exerçamos em conversas com amigos, ser pai não permite egoísmos. É o Amor Supremo. Tirando as roupas que compramos porque achamos ficar-lhes bem, inclinações clubísticas que impomos para levá-los ao estádio do nosso coração e um ou outro castigo que a educação exige, é só cedências. E aqui em casa, resolução para 2015, vou fazer mais ainda. Vou levá-lo a mais festas de aniversários onde não conheça ninguém. Vou ver mais filmes cuja única coisa que arrancam de mim é sono. Vou adiar mais um ano a libertação da tartaruga no Aquário Vasco da Gama porque ele gosta mais de ir ao Oceanário. Vou surfar menos vezes porque ele prefere fazer castelos na areia a ver-me, lá longe, em diversão solitária durante 3 horas. Vou dizer menos vezes “já chega” quando ele desata aos abraços e rebolanços com cães passeados a trela só porque os donos, com “aquela” cara, não estão a perceber que aquilo também está a ser uma pândega para o cão, talvez até dizer “não são só as crianças que precisam dos cães, deviam arranjar uma criança para o cão, vê-se que está a precisar”. Vou levá-lo menos vezes ao “Baeta” porque não sou eu que tenho que gostar do seu corte de cabelo, é ele que tem de fazer coisas muito mais divertidas que estar uma hora à espera enquanto faz perguntas sobre todos aqueles totichos e ganchinhos e molinhas e tintas e cheiros nauseabundos que as senhoras têm na cabeça. Passarei mais vezes pela Garrett e enfrentarei a antipatia dos empregados para comprar croissants com chocolate, antes de irmos ao Martim Moniz. Ficarei mais tempo no Jardim do Campo Grande, ignorando o frio, à espera da chegada dos papagaios em cacofonia (afinal são periquitos-de-colar, naturais da Índia e Paquistão e que ninguém sabe como se deram tão bem tanto em Lisboa como em Londres, onde são mais de 30 mil). Brincarei mais vezes aos cavaleiros de espada, sem vergonha dos olhares reprovadores dos turistas (que de qualquer forma dificilmente me verão outra vez), no Castelo de São Jorge, esse cenário de sonho para quem imagina ao que aquelas pedras já assistiram. Estarei mais vezes no outro lado, Jardim de São Pedro de Alcântara, a ver a sombra a subir pelas muralhas até cobrir os pinheiros mansos e a dar lugar à iluminação pública, enquanto comemos um gelado, mesmo que esteja frio. Tudo vale o mais fugaz sorriso. Se Amor não é isto, peço desculpa pela interrupção. A vida segue dentro de momentos.

Por El Mariachi Diaz

Final Thoughts

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