MARIATCHIN_8 copy Crónicas, Lisboa Mátria

Talvez não, Cidade!


Já distante vai (e ainda bem) o primeiro número desta revista. Foi nesse que falei da talvez vã tentativa de repercutir, no meu filho, aquilo que o meu pai fazia comigo e que radicou num amor desmedido por Lisboa.

Lisboa como a Cidade sem a qual não podemos viver embora vivamos “do Outro Lado”. Eu e grande, enorme parte dos meus amigos, porque talvez os seus pais tenham feito o mesmo, talvez não, talvez seja tão natural como a nossa sede de LX, sentem o mesmo. Lisboa, ali, à mão de chegar de Cacilheiro, foi sempre O Fim Primeiro.

O rio nunca foi uma fronteira, antes antiquíssimo lar das Tágides que nos tocam mais depressa a nós, de Cacilhas à Trafaria, do que a Lisboa, onde é preciso atravessar uma por vezes incómoda Linha de Comboio para que o Tejo nos lamba os pés e não seja uma mera visão de miradouros que alfacinhas dividem com turistas. Os lisboetas mais antigos sabem que o Tejo dá, por esta altura, chocos em barda, corvinas lá para Março… O recém-lisboeta acha que o peixe do Tejo não se come e tudo ali são tainhas “à babuje” no Cais do Sodré e Terreiro do Paço.

Não é culpa deles. É culpa de quem os educou numa Lisboa de Guia Turístico, cada vez mais apartada da Lisboa Autêntica. Há uns anos, uma famosa instituição bancária portuguesa dizia, num anúncio publicitário, “Um dia os golfinhos entrarão no Tejo”, frase que até poderia ter saído de um recém-licenciado da Póvoa do Varzim que agora aluga um apartamento no Bairro Alto. Na verdade, podia ter saído da imaginação de um Alfacinha de Gema. Nós, “Os da Outra Banda” sabemos que há muitos anos que os golfinhos não só entram como vão até bem adiante do estuário, num frenesim de caça ao choco. E enquanto vemos isto, podemos olhar um pouco mais acima para ver do Castelo à Basílica da Estrela, do Panteão à Tapada das Necessidades.

O Nosso Próprio Miradoiro é, porém, especial. Temos de tocar tudo o que a vista abarca e só nos encontramos, em tudo o que somos, a fazêlo. Desde pequenos. Como Mariachito. Serões e fins-desemana, Lisboa é para ele. E mal pode esperar. Poderia dizer que tem predilecção pelo Martim Moniz, a Lisboa Cosmopolita (como já o disse, aqui), mas não. Pisa a calçada como quem desvela um planeta, pousa os olhos sobre as fachadas como quem decifra uma língua, pede-me para gravar o som dos passos num museu como quem não quer esquecer, enfim, é, por agora, um turista que, um dia, será lisboeta. Com uma diferença: Olha também o céu. Entre os prédios. As copas das jacarandás. Ficou-lhe isto do “campo”, onde vive, vai aos limões e come azedas. Segue os rastos das raposas que descem da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil para ir ao rabisco (apanhar as espécies indesejadas que os pescadores da Fonte da Telha deixam na areia). Acorda com o crocitar/corvejar/gralhar/grasnir dos corvos. Deslumbra-se à passagem do colorido bando de abelharucos que, todas as Primaveras, nidifica junto do ringue onde o pai jogava à bola em criança. Sabe distinguir entre piscos e pintassilgos, pegas e gaios, milhafres e falcões. O céu. Na Margem Sul, em Lisboa ou seja onde for. E foi assim que, um dia, me perguntou: “Pai, aquilo são papagaios?”, respondi que sim, que os há aos molhos, dormem no Jardim do Campo Grande, talvez por ser longe dos milhafres e corujas de Monsanto. De dia, percorrem As Sete Colinas. “Como é que uma cidade tem papagaios e nós, que temos uma mata tão grande, não temos?”… Talvez um dia perceba que Lisboa não é só Uma Cidade. Talvez quando o perceber, ainda não seja!

El Mariachi Diaz

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