viajar Crónicas, Olhar no espelho

Viajar no Tempo


Após uma longa ausência voltei às férias de sempre. Há locais que nos permitem o impossível: regressar ao passado

Voltar à infância é automático, num flashback de vários anos. O Baleal mudou, sobretudo no que toca aos m2 de cimento erguidos onde antes não havia mais do que canaviais. Mas o mar, os aglomerados de rochas, cheios de pequenas e grandes piscinas naturais, esses permanecem os mesmos. Assim, como o clima tão cheio de manias (quantas vezes deixei Lisboa com um sol abrasador para ter de vestir o casaco mal aqui chegava, sendo o inverso também verdadeiro).
Escrevo a olhar para o mar revolto, cheio de ondas a fazer carreiras. As águas calmas dão-me tédio, embora no que toca à temperatura já dou o braço a torcer. Só me lembro de entrar neste mar a correr, sem frio algum, quando era miúda. Ficava até ficar roxa, a bater os dentes e a insistir com a minha mãe que não, não estava a ficar gelada.
Quando se é pequeno não há um minuto a perder, não há uma boa razão para acabar uma brincadeira que está a ser boa e nunca é o momento de deixar de chapinhar no mar.
Temos urgência de tudo, de viver, de experimentar, de crescer e sermos donos do nosso nariz para podermos comer os gelados todos que há na arca frigorífica do Café Central. E os dias são lentos, sobretudo os de Verão, que correm longos, preguiçosos. Duram mais que 24 horas, só pode.
Não sou nostálgica, mas tenho saudades dessa languidão dos dias das férias gcrrandes. Recordo também como era bom arrancar para a praia cedinho, com o sol alto e aquele arrepio madrugador. Só deixar a pesca de pequenos peixes e caranguejos nas poças ou as ondas e as pranchas, apenas para satisfazer a barriga farta de dar horas.
O regresso tinha hora marcada com o por-do-sol. Ou quando um dos pais já andava inquieto à nossa procura, a imaginar-nos engolidos por uma onda. “Não vão para o mar do lado de Peniche!”, avisavam constantemente.
Com razão.
Tive vários sustos no mar e guardo marcas de rochas no cotovelo e nos joelhos fruto de brincadeiras mais ousadas.
Mas foi no mar de Peniche que fiquei aflita naquele final de dia de um Verão longínquo, devia ter uns 15 anos. Não me apercebi da corrente e quando dei por isso ondas fortes empurravam-me contra as rochas. Tinha água pela cintura mas não conseguia sair dali.
Foi o meu amigo de todos os verões, um nativo do Baleal, que me agarrou pelo braço e me tirou dali aos puxões. Fiquei com o braço marcado vários dias e uma dívida de gratidão àquele que ainda hoje me chama Moreia, dado o horror que sempre tive por esta espécie de cobra do mar.

Ana Sofia Santos

Final Thoughts

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