MARIATCHIN_WEB Crónicas, Lisboa Mátria

Sérgio Paulo, Suzy Carla, Zé e Outros Animais


Tentei acabar este texto ontem à noite. Mas, mais uma vez, o meu computador foi ocupado por alguém que consegue passar serões inteiros a ver vídeos de animais no Youtube. É uma outra forma de ver o mundo. Não sei se não será bem melhor.

A nossa família vive num bairro. Não será o Bairro do Amor do Palma, mas é limpinho. E também parece que foi feito a lápis de cor. E também há sempre lugar para mais alguém. Todos se conhecem. Sucedem-se os Bons Dias no caminho de casa à mercearia onde, ao Sábado de manhã, há pão alentejano daquele que, à revelia da ASAE, ainda leva sal. Se alguém, mais carrancudo por natureza ou circunstância, não responde com um simples aceno, é O Antipático. Há também o Bem Vestido, a Mais Gira, o Bigodaças e outros que agora não são para aqui chamados, até porque eu sei que costumam ler esta Mui Nobre Publicação. Mariachito é, soube-o no outro dia porque, no Bairro do Amor da Nossa Família, como em todos os outros, há quem fale demasiado alto… O Menino dos Cães. Fiquei obviamente chateado. Porque não são só os cães. O meu filho ama, com toda aquela dimensão do amor que poucos conhecem, mesmo quando acham que sim, todos, mas mesmo TODOS os animais. Infelizmente, ninguém no Bairro do Amor da Nossa Família passeia um gato, um furão, um texugo, um camaleão ou um canário pela trela. Mariachito deixaria qualquer coisa que estivesse a fazer para enchê-los de beijos, abraços e festas. Como faz com todos os cães do Bairro do Amor da Nossa Família. Conhece-os. Todos. Sabe-lhes as manhas, a que horas são passeados. O sentimento é recíproco. Seja a Becky, a Manchinha, o York, o Rocky ou aquele que baptizámos de Sérgio Paulo, todos correm, cauda a abanar, na sua direcção. Ninguém lhe incutiu isto. Mas nunca o desencorajámos. Foi crescendo. O Puto e o Amor. Os seguintes diálogos, transcritos aqui com um ou outro lapso de memória que pode, adverte-se, ocorrer.

[1] Aos 4 anos, pelo Natal, a “tradicional” ida ao Circo. Ao primeiro estalar do chicote do Sr. Cardinali, Mariachito olha-me com aquele sobrolho franzido que conheço tão bem. Quando o homem bate com uma vara num tigre, ELE: “Pai, podemos ir embora?”.

[2] No dia do seu 6.º aniversário, fomos ao Jardim Zoológico. No Show dos Golfinhos, Mariachito olha para o cenário. Pensa muito. Depois franze o sobrolho. ELE: “Pai, no fim do dia, para onde vão os golfinhos?”, EU: “Eles vivem aqui”, ELE: “Nesta piscina? Podemos ir embora?”.

[3] Este verão, o acaso levou-nos às margens do Alviela, Ribatejo. Num café/clube desportivo/centro recreativo, Mariachito olha para as paredes, decoradas com memorabilia tauromáquica. Franzindo o sobrolho, puxa-me pela camisa e segreda-me ELE: “Pai, podemos ir embora? Isto é um daqueles lugares onde se espetam flechas nas costas dos bois. Se calhar vão fazer mal à Susy Carla”. A Susy Carla foi o nome que escolhemos para uma vaca que, durante toda aquela tarde, trocara festas por lambidelas.

NOTA – Zé é o papagaio dos padrinhos. Alimentou-o, deu-lhe mimos, andou horas com ele ao colo. Agora morde indiscriminadamente as mãos que lhe deram de comer à excepção de duas ou três. Chegou a chorar, Mariachito. Ninguém prepara um filho para um Primeiro Desgosto de Amor. Mas ninguém prepara um adulto para perceber, pelas crianças, que afinal o Fim do Amor não tem que vir com mágoa, rancor ou ressentimentos.

Lisboa Mátria – El Mariachi Diaz

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