MR_CRONICA_6 _WEB Crónicas, No Mundo da MR

Pipi? Não, obrigada!


A imposição de um simples bibe de infantário deixou-me marcas. Fiquei a saber que a minha filha não é piegas e que enfrenta grandes desafios como um estimulo.

Sempre julguei que ser Pipi é muito mais que um mariquinhas pé-de-salsa. Para mim ser Pipi – se não se importarem vou escrever Pipi com maiúscula para dar um teor mais sério e menos tinhoso ao tema – é ser bem comportado, delicado e um nadinha coquete. Não vejo mal nenhum em sê-lo. E no caso das raparigas (confesso que nisto tenho uma apreciação machista) acho magnífico. A minha filha Maria Rita não partilha da mesma opinião. Se eu lhe perguntar, o que é isso de ser Pipi? Certamente, não vai saber responder. Mas na visão dos seus três anos e meio há qualquer coisa de errado, negativo e até desprestigiante em ser uma menina com um estilo Pipi. Pelo menos assim fez crer no dia em que a levei a experimentar, pela primeira vez, os bibes do infantário. Em alto e bom som para quem quisesse ouvir, incluindo a empregada da loja que não se mostrou dotada de muita simpatia, disse: “Tchiii mamã, não gosto nada disto. É muita Pipi!” Naquela altura ainda demorei a encaixar a frase de desagrado porque, nunca a tinha ouvido pronunciar a palavra Pipi neste contexto. Mas quando percebi o queria dizer não achei descabido. Pelo contrário, foi um comentário legítimo. Afinal, estava no direito dela em avaliar a farda que vai ser obrigada a usar na fase inicial da vida académica. Assim é a minha única filha. Uma menina genuina, destemida, corajosa, bem-falante, ale-gre, divertida. Nunca me deu muito trabalho. É boa ouvinte, já começa a ser responsável e é relativamente fácil de convencer. Basta munirmo-nos dos argumentos certos e tudo corre na perfeição. Sou uma mãe, ou melhor, somos uns pais afortunados! Agora mais que nunca podemos confirmá-lo. Principalmente desde que vestiu o seu bibe Pipi aos quadradinhos e foi para o infantário com um sorriso nos lábios. Com um ar de quem está pronta para descobrir um mundo novo, muito diferente das mordomias da casa dos queridos avós. A Maria Rita surpreendeu-nos (outra vez) por se comportar à altura do desafio. Foi ELA que tratou de acordar toda a gente naquela quinta-feira em que iniciou as “aulas”. Foi ELA que deu o exemplo e saltou da cama, depois de ouvir o despertador, a avisar: “Vamos embora. Estamos atrasados.” Foi ELA que se quis empiriquitar toda com as unhas pintadas de azul a condizer com a fatiota nova e pôr uma bandolete hippie chic (um complemento que, diga-se, por norma rejeita para tristeza da mamã que adora brincar às cabeleireiras com a sua cliente predilecta). Foi ELA que entrou na sala em passo decidido com os olhos arregalados a observar tudo o que se passava à sua volta. Foi ELA que me apertou a mão com toda a força e mesmo com outros meninos de olhar perdido a chorar não derramou uma lágrima. ELA não se deixou levar pela emoção como eu que, bem tentei, mas não me contive e dei ‘aquele show’ de mãe desesperada que acabara de perder as amarras com a sua bebé. Fui discreta. ELA não me viu a desmoronar porque me afastei. Fugi como uma cobardolas/ piegas/ Pipi. E como acontece tantas vezes desde que ELA nasceu – naquele dia de verão em pleno mês de abril em que o pai Tiago jura ter visto a luz – a Maria Rita deu-me uma valente lição. Ensinou-me a respirar fundo, erguer a cabeça, seguir em frente sem medo do desconhecido. Quando já ia no carro a caminho de casa, escondida por detrás dos óculos escuros, fez-se um click. Lembrei-me das vezes que ELA cai e se levanta num instante a dizer: “Está tudo bem, mamã. Eu estou bem, não te preocupes. Não doeu nada.” Digo-lhe vezes sem conta que não faz mal mostrar as nossas fraquezas e que se for preciso devemos pedir ajuda. Mas eu preferi fazer precisamente o contrário. Retraí-me para o bem dela. Apesar de sermos parecidas em muita coisa, neste dia fui diferente dela porque, fui uma autêntica Pipi.

No Mundo da MR – Soraia Teixeira

Final Thoughts

Overall Score 0
Readers Rating
1 votes
4.6