63341e1ae7e9b1a6ca8b3b962b451f25 copy Crónicas, Refúgios da Felicidade

E agora o que é que eu faço?


Liga tv. Muda de canal. Põe mais alto. Muda de canal. Liga o computador.
Muda de canal. Liga a consola. Tecla no computador. Volta para a consola. Muda de canal. Põe a tv mais alto. “Mãe vamos jogar Monopólio!”.
Espreita o computador. Volta para a consola. Muda de canal.

São as idas e vindas entre os entretenimentos modernos que compõem o cenário cá de casa, nos dias que restam, dentro das férias de verão do Tiago. Quando não dá nada na tv, quando já não há mais nada para procurar na internet, quando já está farto de jogar consola, quando não há ninguém para jogar Monopólio, o Tiago diz desesperado: “E agora o que é que eu faço?”. Esta pergunta junta umas pitadas de tédio a uma boa dose de falta de objetivos. “Vai jogar consola ou vê um filme ou lê um livro ou vai brincar com os Playmobil…” respondo-lhe eu numa ladainha repetida, contando baixinho quantos dias faltam mesmo para começar a escola.
A pergunta não é exclusiva do Tiago, já a ouvi vinda de outras vozes mantendo-se o tom de desespero. A resposta que verdadeiramente me apetece dar é: “Não faças nada!”. Quantos de nós daríamos tudo por um bocadinho de não fazer absolutamente nada?! Uns minutos que fossem dentro de uma semana inteira! Será assim tão complicado estar, apenas e somente, sem fazer nada?
Por outro lado, também já pressenti na pergunta “E agora o que é que eu faço?” uma colherada de responsabilização. Ou melhor, de desresponsabilização. Pensei para mim que, no fundo, o Tiago estava a responsabilizar-me pelo facto de ele estar de férias e não ter nada com que se entreter. Como se me encostasse à parede e avisa-se: “É bom que arranjes imediatamente algo divertido e estimulante para eu ocupar o tempo que tenho.”
Absorvidos e enleados no tempo do imediato, os nossos filhos valem-se pouco de si próprios. Dependem demasiado de nós para tudo: para brincar, para estudar, para escolher, para fazer. Contam connosco ou com um comando e uns quantos botões até para ocuparem o tempo que têm. Para nós, os pais, as férias são dias contados e subtraídos aos escassos 22 que nos dão anualmente. São tempos sonhados e perspetivados, sugados e explorados, como se a nossa sobrevivência dependesse disso. E depende. Quase tanto como os nossos filhos dependem de nós para saberem como ocupar o tempo das férias deles. Três meses inteiros de tempo, possíveis de serem preenchidos com tanto e que acabam desvalorizados em episódios repetidos das séries do Disney ou em jogos de futebol da consola ganhos 10-0 no nível amador.
Enérgico e inquieto, o Tiago não sabe como podem ser maravilhosamente retemperadores uns cinco minutos de… nada. Um tempo de pausa. Como se limpássemos a cabeça, os olhos, os ouvidos ou até o paladar e recomeçássemos de novo. As férias para a gente crescida tem muito disso: o fechar de um ciclo, o recomeço, o renovar de forças ou de vontades. O tempo é já uma joia rara, para ser namorado e desfrutado. Mas, para eles, o tempo é coisa imensa que querem agarrar com as duas mãos, comandar, preencher, viver sofregamente. Faltem dois meses ou dois dias para as férias acabarem, o importante é fazerem alguma coisa com o tempo deles sem suspeitarem que um dia vão desejar, simplesmente, não fazer nada.

 

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