MR_CRONICA_5_72DPIS Crónicas, No Mundo da MR

Magia do fim de semana


Ainda não fui atingida pela fase dos “porquês”. Mas ando em estágio. Já sou surpreendida com um elaborado questionário que testa a minha disponibilidade.

Há meses que acordo de manhã, bem cedo, com um rol de perguntas de tirar o fôlego.
– “Mamã, hoje é fim-de-semana?”
– “Não vais trabalhar?”
– “É hoje que vamos ficar todos juntos?”
Assim descrito parecem duvidas a mais. Especialmente para alguém que, como eu, tem dificuldades em levantar-se da cama e raciocinar num primeiro acordar. Não vou mentir, são realmente demasiados pedidos de esclarecimento para uma mãe cansada com poucas horas de sono. Ainda mais sabendo que todos essas perguntas resultam da falta de tempo que tenho para a minha filha que, embora ainda não cobre, aprendeu a reclamar como gente grande.
Não me sinto culpada. Sei que dou o meu melhor e esforço-me para corresponder às expectativas dela, mas isso não impede que me sinta frustrada. Dou conta desse fracasso nas viagens de carro que faço até ao trabalho. Depois do processo de despachar a Maria Rita para a casa dos avós, sempre a uma velocidade alucinante, respiro fundo e conto até três, às vezes quatro, cinco, seis… Enquanto conduzo reflito com precisão e reparo que se calhar não dei lhe ouvidos quando ela, por exemplo, quis falar comigo sobre o Vómito e do Arroto, os dragões do Cabeça Quente e do Cabeça Dura (personagens do seu jogo virtual favorito).
O mais provável é que enquanto estava a arrumar a lancheira com o almoço, ao mesmo tempo que trincava uma bolacha e olhava para a roupa no estendal à espera de ser apanhada – isto tudo a pensar na bolsa perfeita que melhor condizia com a roupa e os sapatos – naturalmente limitei-me apenas comentar:
– “Uau! Que máximo esses dragões, filha!”. Quando o que devia era ter feito uma pausa para lhe fazer a vontade de ler tudo sobre os magníficos poderes das enormes e espinhosas criaturas que, apesar de desprezíveis e malvadas, até dão sinais de dispensar mais atenção que eu.
A minha filha sabe dar valor aos dias que temos só para nós. Lá em casa somos três e todos, até a Meva – a gata que só tem ordem para dar umas voltinhas pelo pátio ao sábado e domingo – gostamos de desfrutar do melhor que os fins de semana têm para oferecer. Sem horários, nem nada e nem ninguém para atrapalhar e interferir na nossa harmonia. O tempo corre a nosso favor. Até as mais insignificantes tarefas, como procurar a bola dos matraquilhos atrás do móvel da sala, dão um prazer especial em desempenhar. Tudo sabe tão bem que a chegada da segunda feira causa-nos uma espécie de urticária mistério que nem a quiducha e prestável Doutora Brinquedos (figura da Disney) é capaz de curar.
A nossa máxima é fazer com que todos os momentos contem. Que os nossos dias sejam automaticamente incluídos numa lista imaginária de instantes bons e inesquecíveis em que só está permitida a entrada da nossa família. Eu e o pai da MR fazemos isso por ela que não tem culpa se tivemos um dia mau, nem pode ser castigada porque fomos obrigados a fazer ginástica com o ordenado para lhe comprar o que nos pede.
No que toca a essa parte de dar valor ao que é nosso estamos de parabéns. Ela adora e não esconde a felicidade, muitas das vezes manifestada com abraços, beijos e dentadinhas de amor. “Yeah! Yeah! Aos fins de semana é que é!”
E mesmo que nos outros dias eu não esteja atenta aos monstrinhos com nomes repugnantes, sei que ela me perdoa. “Não faz mal”, como me diz quando peço desculpas por me atrasar e ter ido buscá-la à noite, em vez de dia como lhe prometi.
Não a tive para a ver dormir. E se aos fins de semana a Maria Rita me pedir para eu saltar, não tenho problemas em responder-
-lhe da maneira mais estimulante que conheço:
“Ok. E até que altura queres que salte?”