DIAZ_5 copy Crónicas, Lisboa Mátria

Guia para Uso do Progenitor


Já fui um Não-Pai. E lembro-me perfeitamente do que me aborrecia em relação aos Novos-Pais. Eram uns chatos!

Sim, todos nós sabemos que somos pessoas melhores desde que fomos pais. E ai de quem me venha dizer o contrário. Tenho aqui uma nova arma inversora de polaridade criada pela Shield (sim, a dos Vingadores, com especial destaque para o Homem Aranha, Capitão América e aquele loirinho do martelo que fala de maneira esquisita) que não me deixa mentir. Há algo (quase tudo) que faz muito mais sentido. Sentido único. Tudo o que parecia faltar, aqui e ali, pocinhas que saltávamos, foram preenchidas. Somos completos. É boa, a vida. É melhor. Que a d’Os Outros? Talvez. Mas essa, a d’Os Outros, continua a existir. E eles também. E fazem-nos muita falta. E precisam de carinho. É que agora também já conseguimos perceber, por defeito de progenitor, quando é que os nossos amigos precisam de miminho. Quando fazem birra. Quando precisam de uma nalgada bem aplicada, no supermercado, em frente a toda a gente para que o vexame seja parte da lição. Faz falta. Dizem os pedopsicólogos. Eu não, que não percebo nada disso. Nem dou nalgadas. Mas apetece. Ora, tenho grandes notícias aqui do burgo Já-sou–pai de Cima: Os Outros não partilham desta opinião. Para eles, estamos pior que nunca. Mais chatos. Enfadonhos. Os que ainda não são pais pecam por defeito e acham que os temos (aos defeitos) em muito maior número do que quando fazíamos parte da sua “tribo”: os Tios. “Eh pá não sou pai mas sou tio”. Desculpa? Lá está… achar que ser-se tio (eu sou e, jazús, se é bom, mas…), é a mesma coisa que ser pai… demonstra alguma alienação… Felizmente, há Os Outros e os Aqueloutros. Aliás, isto de sermos pais também serve, em ultíssima instância, para vermos quem está dentro e quem deverá, urgentemente, apanhar o autocarro para Afinal–eras-amigo-o-Tanas de Baixo. O directo. Não aquele que sobe a Maria Pia e ainda passa pela Lapa para ir dar à Gomes Freire. Porque o facto de sermos Melhores Pessoas não quer dizer que nos achemos melhores que os outros. É por isso que sinto ser meu dever transmitir algumas dicas para não entediar Os Tios. Mantê-los. Fazem-nos falta:
1. A Cor do Cocó – Eu sei que é difícil de acreditar mas… Os Tios não querem saber. Imaginam-nos com um Pantone junto à fralda aberta, exclamando com uma expressão de técnico laboratorial “eh pá isto está tipo 458M”, ao que a nossa companheira contrapõe “Naaaaa… é Camel, talvez Caqui”.
2. Até o petiz ter idade para dizer ao empregado do restaurante “Ontem apanhei os meus pais a brincar aos médicos”, esqueçam os “gugu dadá”. Não vão arrancar um só sorriso aos comensais e os olhares serão tão reprovadores como os de um Chef Japonês num buffet de sushi na Almirante Reis.
3. As roupinhas que compramos para os nossos filhos não são tema de conversa, assim como nunca foram as que compramos para nós. Se sim, alguma coisa estava errada com essa amizade e é natural que não tenha corrido bem.
4. Considerem os vídeos das actuações na escolinha como algo de muito íntimo. Estão para o agora como as Power Point Presentations das férias em Punta Cana estavam para o antes.
5. Não peçam aos putos para repetir a gracinha que fizeram lá em casa. Obterão, como reacção, mera inacção. Que serve para que percebamos: a) O nosso filho não é um animal de circo e acaba de demonstrá-lo; b) Ele adora-nos e a gracinha que fez ontem foi para nos agradar a nós, seus pais. Os outros terão ainda de provar que merecem.
Ensinam-nos tanto, não é? Quem não quiser aprender, talvez fique para Tio!