MR_CRONICA4_B_72dpis Crónicas, No Mundo da MR

Os dramas na idade do BUÁ


Menina que é menina comporta-se como uma diva em apuros e a minha filha não é exceção

A Maria Rita começou a comunicar e a manifestar-se verbalmente ainda muito pequena. Antes de dar os primeiros passos sozinha, aos 15 meses, já conseguia fazer-se entender na perfeição. O “não” e o “atão?” (então?) foram as primeiras palavras percetíveis a seguir à tão esperada ma-ma e cuja gravação do som guardo orgulhosamente no telemóvel. Tudo isto, para dizer que a minha filha sempre fez questão de dizer – e deixar bem claro – o que ama e o que detesta, como todas as crianças. Doa a quem doer. Por exemplo, nunca escondeu que não lhe agradam Nenucos e Barbies. Para ela, os animais são o supra-sumo da brincadeira e os inquestionáveis companheiros de diversão. Porém, algo mudou, como, de resto, aconteceu com a comida – odiava o sabor do puré de batata mas acabou por apreciar. Gostava de ervilhas e passou a detestar – agora é fã das princesas. Acho que a inesperada admiração pelas meninas boazinhas do mundo da Disney chegou por culpa das irmãs (a Elsa e a Ana) do filme de animação Frozen e da ternurenta princesa Sofia que, se bem conheço a minha picola, só passou a ser realmente querida quando se transformou em sereia.
Subitamente o filhote de homem, o Mowgli e os fiéis amigos, a Baguera e o Balu, deixaram de ser os grandes protagonistas do seu imaginário. Acordar para o reino das princesas bateu forte, mas tão forte que na primeira vez que lhe perguntei o queria ser quando crescesse, respondeu sem hesitar:
– “Quero ser princesa.”
Engraçado que com a histeria chegaram também os caprichos de membro da realeza idolatrada por todos na corte. De um momento para o outro tornaram-se constantes o drama, a tragédia e os horrores mais inusitados – que ao mesmo tempo se tornam engraçados e deliciosos por serem tão próprios da idade do “BUÁ”, bastante mais fáceis de contornar do que os da idade do “BUÉ”. Minto?
No outro dia, desatou a chorar baba e ranho, do nada. Em simultâneo explicava a razão para tamanha apoquentação:
– “Ó mãe, não tenho amigas. Não tenho… percebes?”.
– “Vais ter, quando entrares para a escola”, disse-lhe.
– “Mas como? Se eu nem sei o nome delas”, respondeu entre soluços.
Uma outra catástrofe caiu-lhe em cima numa noite em que saímos para jantar com uma amiga e a dada altura deu por falta do cão do Mickey na sacola dos bonecos. As lágrimas começaram a cair pela cara abaixo e perguntou em tom desesperado:
– “Deixei o Pluto sozinho em casa. E agora?”
Iguais a estes, sucederam-se vários dramas, alguns até engraçados e fáceis de travar. Mas o mais inesquecível de todos ocorreu durante um relaxante banho de imersão, que habitualmente toma antes de jantar. Quem sabe se estimulada pelo momento de pausa, algo que só acontece quando está a dormir, deu-lhe para o sentimento. Olhou para o pai e manifestou o que lhe ia na alma:
– “Não quero que tu e a mamã desapareçam, nunca. Gosto muito de vocês.”
Foi graças a esta confissão comovente que parei para pensar acerca das “coisas dos crescidos”, como lhe costumo dizer que, afinal e injustamente, também atormentam meninas e meninos de três anos. Graças ao drama do “tenho medo de vos perder” dei conta do quão está crescida a minha mini-me, que ainda ‘ontem’ nasceu e só comunicava comigo através de choro e de olhares. Principalmente, nos momentos que tínhamos reservados só para mãe e filha, enquanto mamava no meu peito, e teimava em falar através daqueles enormes e insinuantes olhos castanhos pestanudos. Felizmente ela aprendeu a comunicar. Infelizmente já tem dramas de gente grande. Tal como eu tive e continuo a ter quando penso que um dia vai chegar a hora de nos separarmos para sempre. Antes que esse terrível momento chegue digo, tal e qual como a Maria Rita, me tem ensinado a dizer, sem medo:
– “Amo-te filha. Amo-te Tiago. Amo-te mãe. Amo-te pai”