salsicha Crónicas, Olhar no espelho

O Poder Canino


Quando o meu filho me pediu um cão, resisti. Quando reformulou o pedido e especificou que queria, muito, um cão salsicha, vacilei.

O teckel, dachshund, ou por cá, segundo reza a caderneta da minha cadela Cereja, o baixote, é a minha paixão de criança. Ficava hipnotizada com aquele cão comprido demais para o limitado tamanho das patas, com a barriga quase a roçar o chão.
A primeira vez que o vi foi na praia do Baleal, em Peniche, onde passava o mês de julho a banhos. Um casal, ambos pretos afogueados: o focinho e as patas são cor de fogo, que contrasta com o negro tição do corpo. E eram enormes. Pertenciam a dois alemães e, na minha cabeça de menina, deviam ser um exclusivo dos estrangeiros, porque nunca tinha visto tal espécie com uma trela lusa.
Não tive o cão dos meus sonhos, mas vivi grande parte da minha infância e adolescência na companhia de uma rafeira extraordinária.
É uma experiência que aconselho a todos os pais que gostem de cães e tenham espaço e tempo para acolher um amigo de quatro patas na família.
O meu filho apercebeu-se que tinha tocado num ponto fraco. E eles sabem bem identificá-los e, depois, explorar a seu proveito as vulnerabilidades dos pais.
E, a partir daí, começou o trabalho de formiguinha, num lóbi constante pelo cão salsicha. «São tão fofinhos, mãe, e diz que são também muito inteligentes», argumentava. «Ah e quase não largam pelo e há os míni, que são muitos pequeninos, quase cabem numa mão», insistia.
Não foi difícil convencer-me, aquele cão era o meu sonho de menina e agora tinha a oportunidade perfeita para o concretizar. Sim, não são só os miúdos que nos usam…
Apaixonei-me pela Cereja mal lhe peguei. Tinha dois meses e 800 gramas, mais pequena que um coelho. Preta afogueada, como os tetravós que passeavam ao pôr-do-sol no Baleal.
Foi o presente do oitavo aniversário do rapaz. Mas fui eu que velei a noite toda pela cadela minúscula, como se fosse um bebé.
Ele ficou eufórico e eu encantada com aquela teckel.
Já passaram mais de dois anos e o saldo é mais do que positivo. São os melhores amigos: veem TV juntos, dormem, brincam e até comiam juntos se eu deixasse.
Também têm arrufos. Há dias em que não estão no mesmo comprimento de onda. Ou a Cereja quer dormir refastelada no sofá em paz e sossego e o miúdo quer andar em corridas com ela, ou o rapaz está fixado no canal da Disney e irrita-se com as mordidelas da cadela na ponta dos pés.
Mas já não vivem um sem outro. Ele tem saudades do bicho quando tem que ficar a dormir em casa dos avós ou do pai e ela recebe-o eufórica a cada regresso a casa.