DIAZ_cronica4 copy_72dpis Crónicas, Lisboa Mátria

Faz-se história quando contas estórias, pai!


A Antropologia é um bichano que gosta tanto de festas na Tradição Oral que, assim que soa a primeira história ao deitar, começa a ronronar.

Há que chamar a senhora minha mãe à responsabilidade pelo meu gosto por Estórias. Culpo-a pela avidez com que continuo, a pouca distância dos quarenta, a consumir romances, nem sempre bons, convenhamos, devassando vidas fictícias alheias. É doentio. E assumi-lo é tão bom porquanto me permite evitar ler livros de auto-conhecimento, coisa que levaria tempo, tempo esse em que eu não estaria a ler romances. O cinema é outra das vertentes desta condição voyeurista de que padeço, todas as vidas são interessantes, piores ou melhores que a minha desde que não essa, que conheço tão bem. Há, porém, outra forma de arte que coloco acima de tudo isto. E a minha mãe delinquiu ao ser a primeira contadora de estórias que conheci. E se eram boas. Devia tê-las escrito. Mas se o tivesse feito, não seria Tradição Oral, forma suprema de cultura e Património Imaterial de Todas as Casas onde soa, ribombando em tantas outras depois dessa. Ele há bruxas transmontanas, lobos beirões, raposas alentejanas, reis e princesas por todo o lado, as narrativas passam de avós para netos, escorregam pela árvore genealógica como João por pé de feijão desde tempos imemoriais. E por muito que quem conta um conto acrescente um ponto, é ponto assente que os ouvintes têm tudo para se tornar futuros apaixonados repercutores de tudo isso, ou seja, contadores de histórias. Ao pé de contos tradicionais portugueses como “Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-Água”, “O Boi Cardil” ou “A Sopa da Pedra”, o Esopo, o La Fontaine, os Irmãos Grimm, o Hans Cristian Andersen, o Charles Perrault, o Lewis Carroll ou o Carlo Collodi são uns meninos. Mas acima de tudo isso ainda reside a forma suprema de contar histórias: A Espontaneidade. Aqui, sobretudo, a minha mãe é ré. Foram muitas noites de contos elaborados ali, na hora, com personagens ficcionais, onde qualquer semelhança com a realidade era mera coincidência. O meu pai, “embarcadiço”, essa denominação tão 80’s para “funcionário da marinha mercante que passava meio ano em alto mar”, voltava a casa com mil e uma estórias de lugares tão exóticos que só tornavam os relatos verosímeis porque era o meu pai. Corri Portugal e ouvi mil histórias à mesa. Corri mundo e ouvi outras à fogueira. Chegada a minha vez de deitar mãos a tão importante obra, linsonjeia-me que Mariachito me peça tantas e tantas “histórias de acordar”. Até agora, já lá vão sete anos, consegui não repetir nenhuma. Mas há uma preferida. A do kiwi que sai da Nova Zelândia para ir fazer turismo à Austrália. Deparando-se com um ornitorrinco, aponta-lhe os defeitos: “És tão esquisito… tens pêlo, patas e bico de pato, pôes ovos mas és mamífero”, ao que o monotremado responde: “Ai eu é que sou esquisito? Tu és uma ave, não voas, tens pêlos em vez de penas e pões um ovo que é quase metade do teu tamanho… Não te dói o rabo?”. Quem tem filhos de 7 anos (ou lá perto) sabe o valor humorístico que uma palavra como “rabo” pode ter. Mais do que a Moral, que pauta tantos e tantos contos infantis. E nisto da Tradição Oral, como em tudo, é determinante inovar. Nem que seja reconhecendo que, Moral da história, ninguém tem Moral para moralizar ninguém.