DIAZ_cronica_72 Crónicas, Lisboa Mátria

O umbigo do Mundo está no centro de Lisboa


Lisboa é um Mundo. E o Mundo é Lisboeta. Num lugar muito especial. Onde podemos viajar até mundos distantes. Poupe em aviões e entre no metro. Saia no Martim Moniz. O exotismo está muito mais perto do que possa pensar.

Até a emigração ter voltado a ser uma realidade tão próxima de cada um de nós, por razões que não nos cabe aqui referir, tampouco enumerar, dado o carácter positivista desta publicação, havia um determinado número de “tiques” que atribuíamos aos emigrantes e nos concediam plenos poderes para instituir estereótipos que, refira-se, serviam mais para escarnecer, por diversão à mesa com amigos, que para formar um preconceito propriamente dito. Uma dessas características era, inegavelmente, a propensão para maldizer Portugal em comparação ao país que o/a acolhia. “Lá na Xuíxa não estamos tanto tempo à espera de uma consulta”, ou “Lá em Paris da Franxa ninguém abandona os cães” são, convenhamos, razões sobejas para exclamações tais. E qualquer um de nós as verbalizaria ao termos contacto com uma realidade melhor. Como por exemplo descontos que, efetivamente, valem o que custa vê-los fugir do recibo de vencimento. Mas até não termos tido necessidade de emigrar, olhávamos para os Retornados de Agosto com escárnio, esses “patos bravos” em cima dos seus reluzentes “bateaus de bórráche” que levavam para a praia e duas horas depois lá tinha de ir o “banheiro” buscar uma família inteira muito para lá da rebentação, vermelhos de sol e vergonha, “lá no Luxemburgo não há nada disto”. De uma perspetiva mais realista, isto de observar comportamentos alheios por forma a estabelecer estereótipos leva o seu tempo. Que é tempo que se perde para observar outras coisas. Foi assim que deixámos fugir a oportunidade de estereotipar em relação aos “Viajantes de Pacote de Uma Semana”, uma espécie que surgiu no Advento do Crédito Fácil. Cinco dias de estadia numa capital europeia transformadas numa apresentação de PowerPoint para mostrar aos colegas lá da repartição chegavam para altercações como “Praga é muito mais cultural que Lisboa”, “Paris é muito mais poética” ou, a melhor, na minha perspetiva, “Londres é tão cosmopolita”. Repare-se que estes últimos eram os mesmíssimos que, no regresso a Lisboa, e enquanto mostravam as fotos ao lado do Big Ben, eram capazes de tecer os mais racistas comentários em relação ao Martim Moniz. Sim, não há lugar mais cosmopolita em Lisboa que o Martim Moniz e a adjacente Mouraria. Não há, também, enquadramento histórico mais feliz, tendo em conta que a Mouraria (bairro atribuído aos Mouros após a Reconquista, o que desmente outras teorias mais sanguinárias), é hoje o que sempre foi. Um lugar onde muçulmanos, taoístas, cristãos ortodoxos, hindús, sikhs ou católicos interagem, experimentando puro exotismo sem terem de fazer grande viagem. Eles e, principalmente, nós. Quem nunca comprou uma cerveja muito mais barata no supermercado Paquistanês que meta o dedo engordurado de “paratha” no ar. Quem nunca foi jantar ao “ilegal” chinês que continue a achar que “Família Feliz” ou “Vaca com Molho de Ostra” são pratos realmente tradicionais. Quem nunca adquiriu uma bateria de iPhone a um terço do preço que compre um Windows Phone da Nokia, que é feito na Finlândia e não na China. Salvem-se da hipocrisia e bebam o mundo. Eu e o Mariachito vamos ali “chamuçar”. Foi ele que inventou o termo, não eu.

EL Mariachi dIAZ

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