MRcronica3_72 Crónicas, No Mundo da MR

Abracemos a causa do cocó


Como é que não dei conta que a fixação pelo número 2 era um sinal de que estava pronta para avançar para o bacio? Felizmente, acabou a bem. Ela cresceu e nós também.

Desculpem-me as pessoas que gostam particularmente de maio e em especial as mães, que, tal como eu, adoram receber miminhos dos filhotes no dia exclusivamente reservado no calendário para elas. Este mês dedico a crónica da Lx4Kids ao cocó. Sim, refiro-me à caca ou, se preferirem, ao número 2 com toda a magia que estranhamente tem nas cabecinhas das crianças.

Apesar de ter descoberto as maravilhas e o encanto de ser mãe há pouco tempo, sempre tive noção da obsessão que os mais pequenos têm pela substância malcheirosa que, numa primeira fase de crescimento, largam nas fraldas. A minha filha, Maria Rita, abraçou essa causa do Senhor COCÓ há uns meses. As gracinhas surgiram de rompante e fizeram-se notar pelo peito cheio, em sinal de orgulho e ao som das gargalhadas sonantes que, admito, por vezes tinham feedback da minha parte. No auge das mil e uma piadas, ideias e observações vi-me obrigada a encontrar técnicas para administrar com sabedoria esta fixação por forma a evitar que ela se entusiasmasse e falasse sobre o assunto à mesa ou, na pior das hipóteses, resolvesse pôr a mão literalmente na massa. Lembro-me que houve uma semana em que o tema de conversa ia dar sempre ao mesmo. Uma vez, enquanto lhe trocava a fralda, bem recheada e pesada, estava tão obstinada que não se cansava de procurar chalaças. “Mãe, olha tenho um tesouro valioso”, desatando-se a rir sem medir o ridículo, cheia de certezas que tinha dito algo realmente engraçado. Talvez, por que eu não resisti e ri-me, a MR prosseguiu naquele registo estapafúrdio. Já na banheira insistiu: “Mamã, tens cocó no nariz (…) Mamã, achas que cheiro a cocó? (…) Ó mamã, gostas de cocó.” Estava ao rubro e difícil de dar a volta. Não fosse o bendito telefone que toca as músicas do Ruca para distraí-la, a brincar aos telefonemas para todas e mais alguns personagens de desenhos animados, certamente ia preparar-se para bater na mesma tecla e cismar até começar a cheirar mal. A situação arrastou-se, mas parecia tão natural e indefesa que não me preocupou. Até ao dia em que uma obstipação tramada durou demasiado tempo e só se resolveu numa ida às urgências. Valeu-nos a prontidão e a experiência da pediatra, que tem sido fundamental para ler nas entrelinhas e diagnosticar pequenos problemas camuflados em comportamentos aparentemente rotineiros e próprios da idade. Afinal, a novidade é que a MR aprendera a controlar-se e estava pronta para largar as fraldas. Estava capaz de dar o grande salto que marca a transição de bebé para menina e que tanto orgulha a maioria de nós, papás. Mas como é que não notei?

Provavelmente porque, desta vez, era eu que estava obcecada com a entrada dela no infantário, que não admite meninos e meninas com fraldas, e involuntariamente pressionei-a ao contribuir para a cisma.
Posso dizer que abracei a causa do cocó, sobretudo, encaro-a com uma lição. Também eu e o pai Tiago – como ela gosta de chamá-lo – crescemos um bocadinho enquanto mentores e orientadores da nossa pepita d’ouro. Ganhámos a consciência de que esta foi apenas uma de muitas fases em que a MR esteve à altura do desafio. E nos deixou muito orgulhosos como, aliás, fazemos questão de dizer-lhe todos os dias. O que posso querer mais, se ela corresponde e me mima tanto?

Sou uma sortuda porque tenho os meus momentos “oops derreti-me” a toda a hora. Especialmente quando oiço frases como: “O meu coração bate forte por ti. Estou apaixonada por ti, mamã”.

Soraia Teixeira

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