483346_10151334369008586_1672487343_n Crónicas, Olhar no espelho

O Tempo Certo


Qual é o momento certo para apresentar o namorado aos filhos? Socorro-me da bengala ‘depende’ como resposta. Não sei se haverá um tempo certo, uma altura ou situação ideais, mas ganhei algumas certezas a este respeito.
As crianças são espertíssimas e não se enganam com duas cantigas, por isso aquele encontro ‘casual’ num jardim movimentado da cidade com o ‘amigo’ da mãe que nunca antes foi visto e que mostra grande à vontade (sim, aquela festinha ‘inocente’ nas costas, não passa desapercebida…), não é uma boa ideia.Ainda antes das apresentações já está a radiografia feita, sobretudo se o amigo aparece numa altura em que a mãe anda agarrada permanentemente ao telefone com um sorriso tonto e alheia do mundo.
Outro facto incontornável: os miúdos apegam-se às pessoas, gostam genuinamente, sem filtros ou barreiras e sentem a falta. Desaparecer de um dia para o outro não é justo e lidar com as perguntas constantes sobre a ausência de alguém que se impôs com frequência causa nós no estômago. Por outro lado, prolongar demasiado o encontro pode condenar a relação, já que não partilhar a dimensão mais importante da nossa vida com o namorado pode-lhe gerar inseguranças («serei apenas um passatempo…?»).
Perante o dilema, o que fazer? Não há receitas infalíveis, nem algoritmos que nos indiquem o caminho. Apalpar o terreno, sentir a disponibilidade do lado dos miúdos e perceber o grau de compromisso a que estamos dispostos faz sentido. A principal tarefa de um pai é proteger as suas crias. Colocar os interesses deles à frente da própria vontade. Abdicar e recuar se sentirmos que é o correto, mas sem cair na ditadura dos pequenos seres. As crianças sabem como ninguém dar a volta aos pais e a nossa felicidade é também a deles. Não é fácil, há pedras pelo caminho e dúvidas porque um namorado vai passar a fazer parte do dia-a-dia daquelas pequenas pessoas que são tudo para nós.
As perguntas que a o ‘candidato’ a cara-metade faz sobre os nossos filhos, a curiosidade sobre a dinâmica entre mãe e filho é um bom indicador. Pode ser cortesia, até educação, e faz seguramente parte da fase da conquista. Porém, o interesse e a preocupação genuínos não se fingem. Mais tarde ou mais cedo, é dado o flanco em detalhes que, sobretudo, as mulheres sabem ler com aquela intuição (que fica apuradíssima com maternidade…), chamada de sexto sentido. É de suspeitar um súbito interesse pelo mais recente filme de animação da Pixar, quando ele mal chega ao restaurante escolhe a mesa mais afastada daquela onde se senta o casal com a prole. Lá está, pode apenas querer preservar o romantismo de uma refeição a dois, sem choros por perto.
Mas convém juntar dois mais dois, se a este episódio se somar o amuo dele porque os dias marcados românticos, com direito a pequeno-almoço na cama, na pousada do Alentejo vão ter que esperar, já que afinal o fim de semana que era do pai, passou a ser da mãe.
Há um teste (vale o que vale!) que já fiz: a minha cadela Teckel de dois anos faz a primeira avaliação. Os animais são intuitivos e raramente se enganam sobre a natureza das pessoas. Se houver lambidelas, entusiasmo e saltos para o colo, muito provavelmente estamos no bom caminho. Mas um animal só nos pode ajudar sobre as intenções da outra parte. Do nosso lado, cabe apelar à racionalidade possível de alguém que se debate entre a paixão e o amor de uma vida.

Ana Sofia Santos