MR_CRONICA2_72dpis Crónicas, No Mundo da MR

O gato comeu a língua da galinha que tem memória de elefante


Um ditado popular pode dar azo a uma situação constrangedora. É este o preço que se paga por ter uma criança a caminho dos três anos, a idade de todos os embaraços?

Sempre tive pavor das graçolas inoportunas das crianças. Antes de ser mãe, ouvi com cada uma que, por solidariedade para com os pais no papel de vitimas, acabei por corar tal não era o embaraço que pairava no ar! Perante as tais gracinhas, embora não-intencionais algumas são cruéis, é típico haver uma primeira reacção marcada por um silêncio constrangedor que depois dá lugar ao sorriso amarelo que, à falta de melhores ideias para descalçar a bota, termina com uma repreensão tola e sem grande resultado.
Nessas alturas, em que na cena caricata eu não passava duma simples figurante, só pensava: “ Meu Deus, como é que vou safar-me duma destas quando a Maria Rita fizer das dela?” Isto tudo com a agravante que tenho dificuldade em lidar com plateias. Digamos que sou daquelas pessoas “mutantes”, capazes de se transformarem em semáforos, só de imaginar estar em apuros com os olhos postos em mim.
Porém, são crianças e quanto a isso não há nada a fazer. Dá-se um desconto. Todos sabemos que elas dizem o que pensam porque são genuínas, não medem as palavras, são pedras preciosas à espera de serem esculpidas.
Aguento firme sem me deixar abater e rio-me quando a MR pergunta: “Mamã tens um bebé na barriga?” O que já me aconteceu numa altura em estava mais gorda. No entanto, fico à toa quando imagino o que os avós passaram num dia destes, enquanto passeavam com ela num pequeno espaço comercial – daqueles em que reina ambiente familiar – e ela disse em alto e bom som: “Então, então, o gato comeu-te as pernas ou quê?” (Atenção, isto enquanto ao mesmo tempo que teve a infeliz ideia de apontar para um senhor de cadeira de rodas com óbvias deficiências motoras).
Digamos que esta foi a primeira grande bronca ao estilo da MR. Tinha dois anos e meio e todo um poder de argumentação espantoso. Como, aliás, ficou provado na desculpa que deu após o raspanete da vovó Isabel. “A mamã está sempre a dizer-me, o gato comeu-te a língua…” Ao ouvir isto pensei: pronto aí está o que é, guilty as charge! Não me bastava esquecer de arrumar as fraldas no saco, não mandar o Artur (o tigre de peluche que está na berra) ou a Kate Moss (o urso das pernas longas que ajudei a batizar) para levar na cabeça quando a MR vai para casa da vovó Gugu. Agora também pago pelos ditos espirituosos da irreverente mini me?!
Mãe sofre de bullying e não digam que não.
Confesso que temo pelos três anos celebrados em Abril. Especialmente depois de ler um artigo que me deixou um nadinha apoquentada em que se falava sobre as dez razões porque os três anos são piores do que os dois. Aparentemente é com três anos que se se apercebem do medo, ganham pavor do escuro, ficam assustadas com a hipótese de ficarem sozinhos blá blá blá… Lembro-me perfeitamente da Drª Catarina, a pediatra ter alertado precisamente para este novo estado de alma em que as birra ganham outra dimensão. E em que, para mal dos pecados dos adultos, comportam-se como se estivessem possuídas. Mas não me recordo de alguém ter frisado que um velho ditado popular do reino animal podia permitir um tamanho embaraço.
É oficial a MR fala demais e quem fala muito, dá bom dia ao cavalo.

Soraia Teixeira