483346_10151334369008586_1672487343_n Crónicas, Olhar no espelho

Os metros quadrados da estabilidade


Aos 35 anos, gosto ainda mais da mudança. Deixei de ter medo de puxar a cadeira onde estou confortavelmente sentada e provocar situações. Testar a capacidade de me adaptar e de reagir.
As opiniões dos meus amigos a este respeito dividem-se entre os que acham péssimo sujeitar o meu filho a ter de deixar a casa que sempre conheceu, apenas por causa de um capricho da mãe, e aqueles que defendem que ser confrontado com a mudança desde pequeno é essencial para sermos adultos capazes de agir e de resolver problemas.
A minha perspetiva é que a vida não é um rio de águas calmas, o seu curso pode mudar de um momento para outro. E para lidar com isso é preciso treino. Reconhecer a situação e atuar, tendo em conta a experiência passada. Quem sempre viveu em linha reta, demorará mais tempo a adaptar-se.
Esta é a minha defesa quando sou confrontada com o primeiro grupo, aqueles que acham que as crianças devem ter estabilidade. Não podia concordar mais com a questão da estabilidade, mas será que uma mudança de casa vai provocar um grande stresse ao meu filho?
Ele não está entusiasmado com a ideia. Gosta do seu quarto, do conforto que lhe dá o espaço onde dorme e brinca desde que nasceu. Angustia-me, óbvio, quando ele me diz que não quer que eu venda a casa. Estarei a ser egoísta? Pergunta recorrente.
A mesma pergunta com que se confronta um amigo que está longe da filha de três anos. Não conseguiu ficar no país onde a menina vive com a mãe porque não se identificava com a cultura. Não se adaptava. Não estava feliz e achou que, como não estava bem, não conseguiria ser um bom pai, mesmo estando próximo da filha.
Os milhares que quilómetros que os separam são encurtados com o Skype. As idas ao estrangeiro são esporádicas, fazem-se quando a carteira permite. É o preço a pagar pela decisão de regressar a Portugal.
Ter filhos é viver em dilema. Estou a fazer o correto? Erra-se muito na expectativa de fazer o melhor para eles.
Os nove anos de maternidade e outros tantos de tia de vários sobrinhos de sangue e de coração dizem-me que as crianças têm uma capacidade de adaptação impressionante. São os adultos que complicam.
Explicar as situações ao meu filho, de forma honesta, e responder às perguntas, sem chutar para canto, tem ajudado. O sucesso das novas formas de família resulta, em grande parte, porque as crianças são despreconceituosas e generosas. A separação dos pais, o confronto com as novas relações da mãe ou do pai, o nascimento de irmãos uterinos (mesma mãe) ou consanguíneos (mesmo pai) fazem parte do dia-a-dia de uma geração que, acredito, será muito mais resiliente.
Porque sabem que a mudança não tem que ser uma coisa má. Muitas vezes custa e a tentação por manter o status quo é grande. A pressão para ficar quieto é gigante numa sociedade ainda pouco tolerante e muito reativa face àquilo que é diferente. Somos constantemente assaltados pela palavra trauma. «Olha que o traumatizas! Que raio de ideia a tua de o obrigares a mudar-se, a sair da casa à qual tem uma ligação emocional!».
Manter as crianças numa redoma é fazer o melhor para elas?