DIAZ_72dpis Crónicas, Lisboa Mátria

Lisboa de Ontem Amanhã


Só se dá pela nostalgia quando não a temos por uma espécie de tristeza. Aquele sorriso tímido que é alegria de recordação antes de aceitarmos o pretérito, por muito perfeito que foi ou com todas as imperfeições que eram, não agora que são, pois, nostalgia. Nada disto vale quando somos pais. Olhamos, por defeito, em frente. Por virtude, mais além. E ao projectarmos um futuro para os nossos, fazendo planos, por muito simples que sejam, sem recurso a folhas de excell e power points com tabelas e gráficos, cultivamos nostalgia. Se o “terroir” o permitir, colheremos sorrisos. Como os nossos. Como hoje. Para sempre.
Naquele tempo, no início, era A Volta. Sempre a mesma. Como se a novidade não espreitasse a cada esquina. Pela mão do meu pai, primeira paragem, arcadas da Praça do Comércio. Completava, em poucos minutos, uma colecção de cromos qualquer, “ET, o Extraterrestre”, “Fauna Selvagem”, era um atropelo de gente a trocar cromos, calendários, sei lá. Já espicaçámos a nostalgia? Ainda não? Prossigamos, Rua Augusta para uma dúzia de castanhas, a (ou “os”) Porfírios para a roupa “moderna”, talvez um dos icónicos lenços para levar ao próximo concerto de Xutos, um salto à Rua dos Fanqueiros para uma camisa ou um blazer mais formais e seguimos para a Confeitaria Nacional, ali na Praça da Figueira, nem só de Natal e Páscoa se fazem tantas delícias que eu, pequeno, nariz à altura do balcão, olhos muito abertos, via como um caleidoscópio que recordo a cada reentrada ali, hoje, como sempre, para sempre!
Discos. O que seria de mim/nós sem discos? Valentim de Carvalho, uns anos depois a Virgin, os clássicos estavam no Rossio e Restauradores e escusavam viagens mais longas até à Discoteca Roma, uma espécie de santuário onde todos os gostos eram apaziguados. Havia cabines de escuta com portas de fole, muitas prateleiras com singles, esses quatro ou cinco minutos de prazer que perpetuávamos um ano inteiro ou mais, fazendo viajar a agulha até “aquela parte que é a melhor”, imprimindo-lhe aí um risco que, assim, faria para sempre parte da música, a ponto de soarem estranhas as rematerizações em cd que, anos mais tarde, haveriam de chegar. Havia também os Armazéns Grandella, perecidos no Grande Incêndio do Chiado que fez há pouco um quarto de século, de passagem obrigatória, como romaria natalícia todo o ano, como hoje, como sempre, para sempre.
Dois passos e estamos no Coliseu dos Recreios, onde recordo, ainda hoje, como sempre, para sempre, leões, palhaços, brinquedos no final. Para mim, a clássica sala olissiponense será sempre um Natal qualquer. Saltando das Portas de Santo Antão para a Avenida da Liberdade, o lugar do Cinema. Antes dos centros comerciais, havia o Condes, o Tivoli o São Jorge, um deles haveria de ter uma sessão da Disney, aqueles que hoje são clássicos que, como hoje, como sempre, para sempre, gostamos de partilhar com os nossos filhos. Partilhar. Partilhamos a nossa Lisboa para que Lisboa possa ser, um dia, a deles. Em nada do que acima foi escrito, porque é nostalgia, mas em todos os pequenos detalhes que farão da Lisboa de hoje a nostalgia deles. Só assim o amor pela cidade poderá ser eterno. Como hoje, como sempre, para sempre, pela mão.

EL Mariachi dIAZ