refugios Crónicas, Refúgios da Felicidade

Dias Cheios de Tempo


Para uma criança, um dia está cheio de horas imensas. Em cada minuto cabe um sonho. Em cada hora cabe um ano. Em cada ano cabe o mundo. O mundo que consegue equilibrar na palma da mão!
É tudo gigante mas perfeitamente alcançável quando forem grandes, quando crescerem…
Para nós, os pais, as horas são contas certas. Entre a hora do toque de entrada e o toque de saída, encaixamos o trabalho e as burocracias, os afazeres domésticos e um ou outro projeto pessoal, numa luta de calendários e horários que nem sempre dá “resto zero”.
Então, o que fazer? Como fazer? Como gerimos o nosso horário e o horário dos mais pequenos num equilíbrio saudável, num encontro de interesses e benefícios, de razões e soluções? Arranjamos-lhes afazeres. Atividades de tempos livres, salas de estudo, desportos mil, lições de música, explicações de uma ou outra disciplina mais periclitante. Objetivos e interesses que, em muitos casos, refletem gostos e tendências dos pais, sonhos de infância que não viveram, talentos que não concretizaram, dons que deixaram por explorar. Então, a voz límpida da mãe ouve-se da garganta da filha e os toques mágicos do pai com a bola são chutados para o pé do filho.
Nesta coisa do tempo o mais importante é ocupá-lo e libertá-lo. Fazer dele o melhor que ele tem para dar a cada um. Refletindo interesses e vontades próprias. Para que as crianças vivam dias cheios de si próprias. Para que entre as aulas e as matérias extensas, entre o toque de entrada e o momento do regresso a casa, os nossos filhos sejam exatamente o que são e como são. Sem serem nunca uma extensão de nós, sem terem de usar o melhor do tempo deles a viver sonhos dos pais.
Depois, há que oferecer-lhes tempo. Abrir espaços que os deixe pensar, simplesmente estarem, serem pequenos e sentirem o tempo infinito e vago. Para que tudo o que vivem, dentro dos seus dias cheios, germine, floresça, faça sentido, lhes abra o olhar e multiplique o pensamento. Para que dentro de cada dia possam ser, apenas, crianças e verem o mundo a girar na palma da mão, tão pequeno perante o tamanho do tempo por viver.

Andreia Rasga
refugiosdefelicidade.blogspot.com